domingo, 16 de junho de 2019

A vossa história no meu blogue - O desaparecimento do meu filho

Sempre fui muito aventureira e desportista. A minha folga ideal é passada a fazer caminhadas no mato com os miúdos.
Nesse ano o meu marido não tinha férias na mesma altura que eu. Tive a ideia de pegar nos miúdos, material de campismo para dentro do carro e seguir à aventura.
Era Agosto de 2018. Conduzi três horas para norte até parar num parque de campismo. Foram os melhores dias das nossas vidas. Muita praia, brincadeiras no mato, refeições feitas à fogueira, nada de televisão. O telefone era usado só uma vez por dia para falar com o meu marido e os miúdos com o pai.
Estava a ser tudo perfeito, até que aconteceu.
Estava na praia com os miúdos. Dez, oito e cinco anos. Uma daquelas praias do norte com ondas perigosas. Juro que as crianças vinham sempre ao meu lado. Até que olhei e não vi o Filipe. Com a calma que me caracteriza, comecei  a olhar em volta. Estava certamente mesmo ali e eu não o conseguia ver.
Olhei para a areia, para o mar ... nada dele.
Tinham passado cinco minutos. Já não estava assim tão calma, mas fingi que sim pelos outros filhos.
Fui espreitar a casa de banho e avisei outras pessoas que estavam na praia para que me ajudassem, vinte olhos viam melhor que dois. As pessoas estavam verdadeiramente preocupadas e nem por um segundo me julgaram.
Ali estava eu a três horas de casa, sem o meu marido , sozinha com os meus três filhos, e um tinha desaparecido.
Passados dez minutos avisei os nadadores salvadores. Instalou-se uma verdadeira busca. Apareceram diversos jipes daqueles que os nadadores salvadores têm, e todos os nadadores ali perto procuravam pelo Filipe. Também as diversas famílias começaram a procurar. Organizaram-se grupos de pessoas para ser mais fácil e eficiente. 
Meia hora tinha passado e nem sinal dele. Os meus outros filhos já estavam com uma família que os levou para que não se apercebessem do meu desespero. Vi um carro da polícia marítima a chegar. E mais outro. 
Uma hora desde o desaparecimento do Filipe. Sentei-me no chão. Vomitei muito. Só aí tive coragem de ligar ao meu marido. Não tinha forças nas pernas. O coração parecia saltar-me do peito.
- Minha senhora, lamento. Com essa idade não é normal que se tenha perdido e não tenha já pedido ajuda. - Disse-me um polícia.
Ligaram à polícia de segurança pública. Ou o Filipe se tinha afogado, ou tinha sido levado. 
Apeteceu-me morrer. Esqueci-me dos outros filhos que ali estavam. A culpa de tudo isto era minha.
Estava sentada no chão quando ouvi no rádio do nadador Salvador:
- Tem cerca de oito anos e é rapaz? O nome é Filipe?
Era ele. Tinha-se perdido e teve vergonha de pedir ajuda. Esperou duas horas até pedir auxílio. Por duas horas não soube do meu filho.
Quando vi, senti um misto. Queria abraça-lo, mas também bater-lhe por não ter pedido ajuda mais cedo. Senti-me a desfalecer.
Passaram meses e ainda tenho pesadelos. E ele também.
Foram segundos em que deixei de olhar para eles e olhei para o mar. Juro que sim. É muito fácil apontar o dedo, mas pode acontecer a qualquer um.
Não desejo a ninguém aquilo porque passei. E nem imagino a dor das mães que perdem mesmo os filhos, para sempre.
Acho que nunca agradeci a ninguém. Não me lembro de conseguir verbalizar no final de isto tudo. Mas agradeço todos os dias: às equipas de resgate, aos nadadores salvadores, à polícia, e a todas as pessoas que me ajudaram. Todos mas todos os dias vos agradeço. Talvez um de vocês leia isto. E se o fizer, vai saber que lhe estou grata até ao fim da minha vida.


Anónimo, 42 anos, Almada.









(Fotografia de TVI iol.pt - retirada da plataforma google)



sexta-feira, 7 de junho de 2019

Palmadas?


 Logo no início do blogue escrevi um texto sobre as palmadas.
Confesso que não sou mesmo fã de dar palmadas ao Gustavo, mas também confesso que há frases que me fazem sentir quase na obrigação de o fazer. “Uma boa palmada nunca fez mal a ninguém”, “Se tivesse levado uma palmada na hora certa não fazia isto”, “Isso é falta de uma boa palmada”; “Levei muitas palmadas e estou aqui”.
Houve uma altura em que o Gustavo nos levantava a mão com muita frequência. Tinha cerca de um ano. No fundo era um bebé a experimentar gestos e reações, mas o Zé achava inadmissível um bebé bater, e que devia levar uma palmada para entender isso. Já eu, defendia que se um bebé aprende pela imitação, bater era o pior que podíamos fazer. Estávamos a ensinar o nosso filho que era correto bater quando se sentia zangado ou frustrado, porque efetivamente era nessas alturas que o Zé achava que uma palmada resolvia o problema.
O Zé lá levou a dele em frente e o Gustavo levou uma ou duas palmadinhas. Adivinhem o resultado? Isso mesmo. O miúdo começou a tentar bater em toda a gente por tudo e por nada. Quanto mais ele batia, mais o Zé defendia a palmada.
Certo dia a pediatra ressalvou isso mesmo. Sem ninguém lhe perguntar, advertiu que por volta daquela idade eles começavam a testar e por vezes a tentar bater, mas que não devíamos bater de volta porque eles agiam por imitação e iam começar a bater ainda mais.
Isso era aquilo que eu já defendia mas tinha sido ignorado pelo meu rico marido. Mas quando é uma senhora Doutora a dize-lo pelos vistos tem outro impacto.
O Zé já tinha feito as coisas à maneira dele, agora íamos fazer à minha. Sendo que o Gustavo andava com essa mania de nos bater, ainda nos levantou a mão muitas vezes sem ter resposta de nossa parte. Certo dia até me avisou “Não se bate” e depois bateu-me. Estava mesmo a testar e a tentar causar alguma reação de nossa parte.
Não obteve reação nenhuma e simplesmente deixou de o bater. Nunca mais o fez porque viu que não tinha o efeito que ele desejava: não nos afetava.
Se acho que uma palmada na altura certa pode fazer milagres? Sim. Se acho que uma palmada quando eles são tão pequenos e agem por imitação é desaconselhado? Também sim.





quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ser criança é ...


Já vem sendo habitual postar algumas coisas que os miúdos dizem. As crianças são o melhor do meu mundo e delicio-me com a sua inocência e sinceridade (quem não?).

Só agora consegui recolher aquelas frases giras que os miúdos dizem, desta vez em relação ao dia da criança.

Ser criança é….


Ser pessoa

Ficar muito pequenino

Brincar com o pai

Deixar o pai triste às vezes

Ser filho dos pais

Fazer pinturas

Ser um menino

Estar feliz

Portar-se bem

Ir à escola

Ajudar a mãe

Comer tudo

Ir ao parque


Tão bom que é ser criança!

A minha criança favorita


terça-feira, 28 de maio de 2019

Madrasta


Um dos temas centrais deste blogue é a questão dos divórcios, das madrastas e dos enteados. No entanto não tenho escrito assim muito sobre isso. Escrevo hoje, depois de ler a coisa mais parva (para mim) que uma alminha portuguesa escreveu sobre o assunto.
Escreveu uma psicóloga, que não admitia ser chamada de madrasta (apesar de o ser). Escreveu que esse nome tem uma conotação muito negativa e que ninguém deve ser assim apelidado. Sugeriu então que as madrastas fossem chamadas de amigas ou mães. Mais informou, que não admite que os enteados a chamem por um nome que não mãe.
Eu sou madrasta. Também sou mãe. E isso é só estúpido.
Madrasta é, segundo a nossa língua, a nova companheira do pai. Dei-me ao trabalho de ir ao dicionário ver, visto que uma leitora certo dia veio teimar que eu só era madrasta se a mãe das meninas tivesse morrido. Bem pesquisei por essa definição mas não encontrei nada relacionado.
Também há quem ache chocante eu apresentar as meninas como minhas enteadas ou filhas do Zé. Da última vez que verifiquei, era isso mesmo que elas eram.
As palavras têm a importância e a conotação que as pessoas lhes dão. Culpem os filmes da Disney e as histórias tradicionais que serviram de base aos filmes, se quiserem. Sou madrasta sim. E as miúdas que me chamem sempre assim (se fizer sentido para elas). Não sou mãe delas. Sou amiga delas sim, mas o que me distingue de outras amigas que possam ter, é que sou a mulher do pai.
Acho que cada pessoa tem de saber o seu lugar, este é o meu. Sou companheira do pai delas. Vivo com elas há cinco anos. Organizo as suas coisas da escola (hoje em dia faço com que organizem sozinhas) , mando-as para o banho (em tempos já ajudei a que tomassem banho), obrigo-as a estudar, mando-as ajudarem nas tarefas domésticas, compro-lhes roupa, ouço os seus dramas, levo-as à praia, troco roupa e acessórios com a mais velha, penteio o cabelo à mais nova e ralho. Ralho bastante até.
E pronto, é isto. Sou madrasta sim. É isso aquilo que sou. E é bem porreiro ser madrasta digo já.

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A Gabi quando era mais pequena que eu

A Matilde quando usava vestidos

Meu Deus, eram tão pequeninas!

A mesma parva de sempre

Este dia tem uma história muito engraçada mas fica só para nós.




sexta-feira, 3 de maio de 2019

Cinco anos. Parabéns a nós.


Hoje é o nosso dia. Não é o dia em que nos apaixonámos. Não é o dia em que decidimos que queríamos fazer parte da vida um do outro. Não é o dia em que oficializamos a nossa relação (isso nunca aconteceu).
É o dia em que nos encontrámos na discoteca e eu acabei na casa dele. É isso assim. Sem romantismos. Sem mimimis. Sem amor.
Na segunda-feira seguinte no trabalho não sabia bem como olhar para ele. Rezava a todos os santinhos para que ninguém reparasse em nada.
Já não sei quem enviou mensagem para quem. Não me lembro quando nos encontrámos novamente. Sei que ficava com o coração aos saltos quando ele passava por mim e dizia  “Olá boa tarde”. Sei que quando o telefone tocava esperava que fosse ele.
Ao mesmo tempo pensava “Mas que raio ando eu a fazer?”. Treze anos a mais, divorciado, com duas filhas, colega de trabalho. Nice. Tudo aquilo que eu não queria.
Aquele primeiro mês foi demais. Estava com ele, dormia com ele, e no trabalho mal nos falávamos. Dava alguma pica à coisa, confesso.
Tentei fugir. As minhas amigas sabem que tentei.
Nem há um mês estávamos “juntos” quando conheci as miúdas. “Fixe, é agora que ganho coragem para me pirar disto”. Depois elas imploraram para jantar com elas e lixaram o plano todo.
Poucos meses depois vivia com ele. Tivemos (e vamos tendo) altos e baixos como em todas as relações,  julgo eu. Somos totalmente diferentes, quem nos conhece sabe-o bem.
Não sei quando começámos a pensar que se calhar até tínhamos uma relação. Nunca falámos daquilo que éramos um ao outro. Realmente se gostam de histórias de amor e famílias típicas, este é o blogue errado.
Contrariamente a más línguas que achavam que era uma crise de meia idade para ele, e uma diversão para mim, cá estamos. A crise continua e a diversão também. E estamos tão bem.  Todos. Os cinco.


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sexta-feira, 19 de abril de 2019

Hoje não fiz nadinha, para além de dormir.

Se são mães recentes e estão a passar pela privação do sono, vão ficar com alguma inveja.
Hoje dormi, nada mais nada menos do que ..... dezasseis horas. Sim leram bem. Juro que nem sabia ser possível um ser humano dormir tantas horas.
As minhas colegas de trabalho fofas acham que andei a fazer outras coisas mais interessantes, até acham que fiz um irmão para o Gustavo. Para infelicidade delas mas felicidade minha, dormi, só dormi, muito. 
Tive uma semana para lá de péssima. Este ano o meu grupo de crianças é, digamos, requintado. É desses que gosto, porque cada conquista deles me sabe melhor, mas este ano tem-me saído do pêlo. Para ajudar, altura de Páscoa e dia da mãe. Educadores sabem do que falo. Stress, muito. Para ajudar ainda mais, sem auxiliar na sala. E por fim, só mesmo para terminar, um miúdo em casa que não facilita.
Portanto, esta semana senti-me no limite. Senti que se não fosse feriado hoje, não aguentava. Foi uma semana de chegar a casa e chorar de cansaço. Não sei se já vos aconteceu, a mim aconteceu umas cinco vezes na vida inteira, estar tão mas tão cansada que preciso de chorar para reunir forças. Deve ser isto que significa estar perto de um esgotamento, sei lá.
Assim, a noite passada o miúdo ficou nos bisavós e eu ...... dormi. Dormi mais do que me recordo de alguma vez ter dormido. E quando acordei, não fiz nada. Zero, nicles. Não limpei a casa, não li um livro, não vi um filme. Limitei-me a existir e soube-me bem para caraças. Ao fim da tarde fui num instante às compras, para aproveitar que o rapazinho não estava. 
Sinto-me outra. Pronta para enfrentar mais uma semana com as feras, que é como quem diz, com o meu miúdo cá de casa, e com os dezoito miúdos dos outros.

Continuem a seguir-nos aqui.

Continuem a seguir-me aqui. 


Fim de tarde, antes de regressar à vida normal.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O péssimo marido (mas bom pai)


Talvez em casos raros alguém engravide dum momento fugaz  que viveu  num noite. Ou de uma amizade colorida mais irresponsável. Mas na maioria dos casos, um filho nasce de um ato de amor. Mesmo quando não é fruto de um amor louco daqueles dos filmes (isso existe?), é fruto de uma paixão, de uma relação, de uma vontade. Por algum motivo, escolheram a pessoa X para ser mãe ou pai de um filho. Viveram bons momentos, conviveram juntos, partilharam desejos e angústias. Em muitos casos disseram o “sim”, nem que de forma simbólica. Essa pessoa era o ou a tal. Era a vossa pessoa.
Até que um dia as coisas mudam. Há uma separação, e essa vossa pessoa passa de bestial a besta.
Para começar tenho alguma dificuldade em entender como é que alguém muda tanto de personalidade. Basta colocar “EX” no nome.
É que reparem, ainda que determinado ex tenha sido incrivelmente mau para a sua cara metade, a certa altura vocês escolheram-no. Falemos por exemplo numa traição. É feio, se fosse comigo cortava-lhe as bolas, mas ainda assim, não deixava de ser um bom pai para o meu filho, o melhor que podia ter escolhido.  Era só um péssimo marido.
Convém então, que os ex casais se foquem naquilo que realmente importa: o filho em comum. Porque quer queiram, quer não, isso vai liga-los para sempre. Não é por ele ter sido um péssimo marido que tem de ser um péssimo pai. As crianças não devem nem têm de pagar por um erro que não cometeram. Os adultos que se entendam.
E sempre que queiram falar mal da vossa ex cara metade, lembrem-se da maior prenda que vos deu: uma dádiva chamada maternidade.
(E se não conseguirem mesmo ser sensatas, se não conseguirem manter a cabeça fria e se precisarem mesmo de lhe chamar todos os nomes do mundo, por favor nunca o façam à frente do vosso filho).

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(O pai que te escolhi. Sim o Gustavo tem batom)